Pessoal, realmente as terras do Tio Sam não estão com clima muito favorável.
Nova York não é, nem de longe, sombra do que era há 4-5 anos atrás. A crise pegou mesmo os americanos... demissões em massa pois a forma mais rápida de cortar custos ainda é demitindo - uma pena, pois muita gente talentosa deve estar perdendo seus empregos por lá.
Já há comentários que o sonho americano já não é mais possível e que a terra das oportunidades não parece mais aquele Eldorado de outrora.
O blog da HSM traz a 2ª parte das constatações do blogueiro Julio Sergio (link direto aqui) que reproduzo abaixo, mostra o real estado das coisas, pois são as observações de quem não é da grande mídia, portanto, sem o compromisso de maquiar para parecer que não está tão ruim assim.
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Por Julio Sergio - Blog Update or Die (Portal HSM)
Continuando as minhas observações sobre os efeitos da crise financeira na cidade de Nova York,[+] falarei dos sinais nítidos de uma enorme preocupação das empresas em reduzir custos a qualquer preço, de qualquer forma. Fui à GNC 5th Avenue - conhecida loja que vende suplementos nutricionais - para comprar meu termo gênico e o primeiro impacto aconteceu quando procurei Harry (um vendedor que sempre me atendeu nos últimos dez anos) e não o achei. Pensei, “acho que ele está em férias”. Mas ao perguntar por Harry, a única viva alma na loja me informou que ele havia sido demitido.
Para seu lugar, contrataram um jovem inexperiente, certamente mais barato. Um tanto quanto insatisfeito, resolvi ir embora, mas eis que me deparei com outra grande surpresa - só que desta vez bastante interessante para meu bolso: todos os produtos nas prateleiras estavam com 40% de desconto. Voltei atrás e comprei o que estava precisando. Na hora de pagar, mais uma notícia que não esperava, tinha um desconto adicional sobre o valor líquido da compra, de mais 20%. Olhei para o jovem vendedor e comentei: “já presenciei várias crises nesses 30 anos que venho ao país, vi o uso de descontos como medida de salvação, mas nunca nessa proporção”! Aleluia!
Pois é, a crise atual está mudando paradigmas. Políticas de preços irracionais adotadas pelo comércio local estão dando vez a uma prática de descontos agressivos que visam atrair o consumidor - hoje muito distante das lojas. É óbvio que como consumidor, saí de lá pra lá de satisfeito. No entanto, os aspectos ligados a corte de gastos me deixaram bastante perplexo. Primeiro foi a demissão do meu conhecido vendedor Harry, depois a não tão esfuziante iluminação dos letreiros das lojas de uma das metrópoles que mais fervilha todas as noites da semana.
Já não se vê mais aquele brilho efusivo de outrora. As lojas resolveram economizar energia elétrica e fico imaginando como teria sido o Natal para os americanos. Por outro lado, quando se entra em qualquer loja, há ainda um grande choque com a temperatura dos ambientes, que tradicionalmente era um gelo. Agora, em dias muito quentes, a temperatura interna é quase idêntica à temperatura externa, embora você não morra de calor. O ar condicionado já não funciona mais a todo vapor e lembrei-me do que acontece nos países emergentes.
Confesso que é estranho ver uma Nova York bem diferente daquela que estamos acostumados e somos atraídos a visitar. Mais complicado foi perceber a forte presença da figura dos “liquidators” - empresas especializadas na compra de estoque de lojas que faliram ou fecharam seus negócios. Antes, era raro vê-los atuando por lá. Agora, com os espaços vazios, eles voltaram à cena com força. Aproveitam-se de imóveis desocupados, pelos quais pagam aluguéis ínfimos, para vender mercadorias por preços bem baixos, sem garantia dos produtos. Como num “camelódromo” de marcas de luxo, vendem até terno Armani por uma bagatela de US$ 250 (pena que não tinha o meu tamanho!).
Quais são, afinal, na minha visão, os componentes dessa crise? Sem dúvidas, a crise é, sobretudo, de natureza ética. Reflexo de uma exuberância irracional, de um consumo excessivo, de uma busca desesperada por artigos de luxo; que elevaram de maneira extraordinária os preços dos imóveis. Isto é, preços muito acima do razoável, provocando um verdadeiro inchaço, cheio de gordura. Além, é claro, dos instrumentos financeiros tóxicos, para os quais não havia máscaras de proteção. O que acontece agora, diante de tudo isso que vi, é que os preços estão retornando aos patamares de maior racionalidade: caem os preços das commodities, dos imóveis, dos artigos de luxo, do preço das mercadorias de uso mais comum (comida, bebida etc.)
Essa crise precisa ser entendida como uma grande e importante lição de que embora o mundo capitalista tenha inúmeros e incomparáveis benefícios, seu modelo é perverso: não perdoa a incompetência, o descaso com o dinheiro, o consumo desenfreado e exige um constante controle das relações entre os atores do processo: não pode existir liberdade econômica, sem supervisão eficaz de quem é responsável por fazê-lo. Liberdade econômica não pode ser confundida com libertinagem. Ou será que estou errado?






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